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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Como mudamos o mundo.

Essa semana eu tive a felicidade de ler um texto no blog de uma amiga, Narjara, que me emocionou. Clique aqui para ler o texto ao qual eu me refiro.

Me emocionou porque me identifiquei com aqueles sentimentos que ela conseguiu expressar tão bem ao confrontar uma outra cultura. 

Me emocionou porque às vezes tenho a sensação de que hoje em dia o amor não tem mais vez. Que estamos na era do "cada um por si e ninguém por todos". Essa é a razão do sentimento de solidão em meio à multidão que assombra boa parte da humanidade.

Me emocionou principalmente por me provar que em cada cantinho do mundo ainda existem almas de amor puro, dispostas a ignorar o egoísmo e iluminar o caminho do outro. Esse amor puro é diferente de você amar sua mãe, seu pai e sua avó. É o amor pelo desconhecido, por qualquer ser, independente de espécie, raça e índole. Não é fácil não. Acredito que essas almas sejam vistas pelo universo como pontinhos de luz, capazes de iluminar tudo e todos que estão à sua volta, não importando as condições do meio.

Se após esses 4 parágrafos você ainda continua lendo, parabéns! Você, assim como eu, também está em busca desses pontinhos iluminados por aí, se você já não for um deles.

No texto da Narjara sua experiência mostra que nem a necessidade de sobrevivência em um meio hostil justifica os pequenos trambiques. O coração honesto sobrevive e ainda contamina outros. Conseguimos extrapolar essa vivência também para o nosso mundinho, onde trambiques são justificados a todo momento, onde se faz qualquer coisa por cargos e salários.

Eu confesso que havia perdido a confiança na humanidade. Essa confiança foi se perdendo ao longo de anos, paulatinamente, em decorrência de pequenas vivências que, a princípio, não me importavam. Não damos importância porque é nossa rotina. É a correria do dia a dia, nessa selva em que temos que nos preocupar em "garantir o nosso" e assim nos habituamos com notícias de corrupção, com pequenas mentiras e traições, com "dar um jeitinho naquilo sem ninguém perceber". Você sabe do que eu estou falando.

Mas quando você se permite parar e observar você pode enxergar como isso é nocivo. E como fazemos parte desse mundo sem perceber. Veja:
  • Não conhece ninguém que já deu uma graninha pra um guarda, ou pra um intermediário conseguir algo mais facilmente?
  • Não conhece ninguém que já participou de algum esquema secreto pra garantir uma vaguinha em algum lugar?
  • E você, quantas vezes o orgulho já tomou lugar da humildade em sua vida?
  • Quantas vezes você tomou decisões pensando no dinheiro, em detrimento do seu bem estar ou de sua familia?

Tá vendo? Somos todos responsáveis.

Mas não perca a fé na humanidade. Acredite, isso é patológico e eu faço terapia até hoje. Acredite nos pontinhos de luz. Dê o seu melhor para tentar se tornar um deles. Comece a observar pequenas gentilezas que acontecem à sua volta. As valorize. As admire. Precisamos exercitar esse amor. Com o coração. Podemos começar em pequenos gestos, como um sorriso e um bom dia sem esperar retorno... só pra distribuir.

OM MANI PADME HUM

Uma das minhas tatuagens representa um mantra budista que nos ensina: OM MANI PADME HUM. Essas seis sílabas trazem consigo muito significado. Resumindo, elas nos ensinam que se utilizarmos nossa sabedoria com a intenção altruísta de nos tornarmos iluminados, cheios de compaixão e amor, podemos transformar nosso corpo, fala e mente impuros no corpo fala e mente puros de um Buda.


Ou seja, a mudança que queremos ver no mundo está dentro de cada um de nós.

Eu acho que essa é nossa missão nesse mundo: reencontrar nossos valores e nos transformar para deixá-lo melhor.

Eu vou ficar aqui, me esforçando e torcendo para que vários pontinhos se iluminem pelo planeta.



segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cidade limpa: não precisa ser tão complicado.

Ontem eu presenciei uma cena aqui próximo de minha casa, para mim, ainda inédita.

Era último dia de aula das crianças e adolescentes que frequentam a única escola da cidade antes de um curto período de férias da primavera. A última atividade proporcionada pela escola foi justamente a cena com a qual me deparei: adolescentes (acredito que deviam ter uns 12 ou 13 anos) vestidos com coletes alaranjados com refletores e distribuídos em pequenos grupos estavam alocados em diferentes pontos da cidade para recolher o pouco lixo que havia na rua, na beira da estrada e nas praças.


By Michelangelo-36 (Own work) [GFDL (http://www.gnu.org/copyleft/fdl.html), CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/) or CC-BY-2.5 (http://creativecommons.org/licenses/by/2.5)], via Wikimedia Commons


Cada um com um saquinho na mão, ajudando a limpar a cidade em que sua família vive.

Foi interessante observar como agiam. Um cuidava da segurança do grupo, fazendo sinal para os carros diminuírem a velocidade; outros animados, competindo com os colegas para ver quem pegava mais lixo; em outros notava-se uma certa cara de indignação.

E foi essa cara de indignação que me chamou a atenção. Não era indignação por ter que fazer aquela atividade. Seus olhos diziam: "Por que alguém joga uma garrafa plástica AQUI???".

Uma atividade tão simples que pode trazer ao adolescente de hoje a noção de certo e errado, de respeito pelas áreas públicas, de lixo no lixo, de consciência coletiva.

Notem que quando comecei a descrever a cena, mencionei "pouco lixo". Sim, o lixo nas ruas aqui é pouco. Uma latinha de Red Bull aqui, uma garrafinha d'água lá longe... Vejo agora porque aqui não se tem garis e as ruas são limpas: os moradores aprendem desde cedo as implicações do lixo no lugar errado.

Fazer um adolescente pegar um saquinho e catar o lixo da rua o faz pensar naquele copinho que ele jogou sem que ninguém visse, o faz vigilante em casa e com os amigos.

Moro na Suiça, um país rico, de primeiro mundo, que oferece uma qualidade de vida invejável. A limpeza de áreas públicas e a consciência da população sobre o descarte correto de seus resíduos são fatores que pesam para essa classificação. Mas vejam como não é preciso ser um país rico para dar essa lição - na prática - para crianças e adolescentes. Basta dedicar poucas horas do ano letivo à atividade semelhante.

Às vezes, enquanto esperamos grandes verbas do governo para grandes mudanças, não enxergamos que com medidas simples e baratas podemos ter um efeito eficaz e duradouro.

Agora saia na rua e observe o lixo jogado nos cantos. Pense no trabalho que dará para recolhê-lo. Pense em quem fará isso. E pense sempre nisso quando você for jogar sua bituca de cigarro, seu chicle ou seu copinho descartável disfarçadamente no chão.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Afinal, é Carnaval!


Todos só falam de carnaval. Espero ansiosamente para que os próximos dias passem rápido.
Isso cansa, gente!


Eu admiro quem ainda curte o carnaval puro. Todas as classes unidas despretensiosamente, cantando marchinhas e fazendo uso abusivo dos confetes e serpentinas.

Eu já sou do time dos que gostam apenas dos dias de folga que o carnaval nos proporciona. Mas devo confessar que esse time - que vejo crescer a cada ano - tende a se frustrar facilmente, a não ser que consigam viajar para algum lugar deserto, onde não se ouvirá o samba alheio.

É engraçado observar a relação das pessoas com o carnaval. E observar no quê ele tem se transformado. Isso nos leva à reflexões. E as conclusões, para mim, são tristes.


O nome carnaval vem do latim e significa prazeres da carne.


As sociedades antigas romanas e gregas já promoviam festividades pagãs em que todos se uniam em busca desses prazeres em sinal de liberdade. Essas festas deram origem a diversas festas carnavalescas por aí (o carnaval não é propriedade do Brasil não, minha gente), que são caracterizadas pela união de todas as classes sociais, culturais e econômicas em festejos de rua, algumas vezes fazendo uso de fantasias e máscaras, assim como ocorre ainda hoje na França e Itália.


O nosso famoso carnaval tem origem no entrudo português, que era uma festa de 3 dias e que marcava o início (entrudo = intróito = começo) da quaresma, período em que a Igreja Católica restringe o consumo de carne, como forma de penitência até a Páscoa. Era assim, também uma festa de liberdade, onde se festejavam esses últimos dias de abundância "carnal" com abusos de todos os tipos.

Entrudo

Sim, uma festa que marca um período religioso de penitências e reflexões é estranhamente marcada por sujeira, abuso e violência. Bem típico da hipocrisia do homem - mesmo do dito religioso.

Uma festa cheia de contradições. E foi isso que desembarcou no Brasil em uma das caravelas que atracaram em nossas costas na época colonial.
Aqui, essa festa sofreu influências das festas carnavalescas renascentistas que aconteciam na Itália e na França e agregamos ao nosso entrudo o uso de fantasias.

No século XX foram somados elementos africanos que se exibem hoje em nossos ritmos carnavalescos. Nosso carnaval foi enriquecido com outras culturas. Algo bem brasileiro do qual me orgulho.


Hoje no Brasil o carnaval é festejado de diferentes maneiras em cada canto do país. Entretanto, o carnaval que o Brasil exporta e que é responsável por rentosos turistas é o desfile do Rio de Janeiro.

Desfile de Escola de Samba no Rio de Janeiro

O carnaval da Sapucaí é uma coisa louca. É uma indústria de imagem, marcada por celebridades (algumas ainda aspirantes) vestindo camisetas estilizadas e aglomeradas em uma redoma de vidro à beira da avenida, porém, totalmente entregues aos abusos e constrangimentos dos reles mortais. Algo assim, tão longe e tão perto. Nessa avenida as comunidades populares desfilam seu exuberante trabalho artesanal, fruto de um ano todo, marcado por glamurosas alegorias que acabam por contrastar com corpos excessivamente nus - muitos de celebridades que saíram da tal redoma e decidiram se misturar.

A nudez é uma expressão artística - assim como as alegorias. Um corpo nu pode dizer muitas coisas. Entretanto, essa nudez que confrontamos a cada segundo durante esses dias não é uma nudez bem articulada e muito menos democrática, uma vez que exclui de sua panelinha corpos não padronizados esteticamente.

Carnaval, pintura de Aldo Luiz
A nudez aqui então passa não a expressar qualquer tipo de manifesto social, mas somente uma empobrecida apelação erótica. Com tudo isso, só o que vemos nesse período de carnaval é esse clima de pseudo-orgia não só bem aceita mas incentivada num ambiente onde tudo pode (afinal, é carnaval).

Tá, sem moralismo, é válido, mas muito pobre frente a tudo o que o carnaval poderia oferecer. Contudo não podemos dizer que perdeu a sua essência, afinal, mantém a tradição de festa da carne, além de favorecer situações de abusos, honrando seu inspirador, o entrudo.

É a empolgação. Eu acho empolgação o máximo! Mas vender uma empolgação irresponsável, sem freios e sem consequências era pra dar cadeia, não??


O nosso governo gasta rios de dinheiro anualmente por conta dessa empolgação sem dono. A campanha do Ministério da Saúde para o carnaval desse ano frisa o seguinte: "Na empolgação rola de tudo. Só não rola sem camisinha". Então tá.


Campanha do Ministério da Saúde para o Carnaval 2012. Primeiro ano abordando também travestis.

Alguém já disse para o Carnaval o que eu gostaria de dizer. Esse alguém foi Fernanda Young. E a carta enviada é a que vocês lêem abaixo.

Bom carnaval!
E se rolar, use camisinha!
Afinal, é Carnaval!


"Para o Carnaval
Todo ano é a mesma coisa: você chega, fica aqui três dias e aí vai embora. Volta um ano depois, todo animadinho, querendo me levar para a gandaia. Olha, honestamente, cansei.
Seus amigos, bando de mascarados, defendem você. Dizem que sempre foi assim, festeiro, brincalhão, mas que no fundo é supertradicional, de raízes cristãs, e só quer tornar as pessoas mais felizes.
Para mim? Carnaval, desengano... Você recorre à sua origem popular e incentiva essas fantasias nas pessoas, de que você é o máximo, é pura alegria, mas não passa de entrudo mal-intencionado, um folguedo, que nunca viu um dia de trabalho na vida.
Acha-se a coisa mais linda do mundo e é cafonice pura. Vive desfilando pelas ruas, junto com os bêbados, relembrando o passado. Chega a ser triste.
Carnaval, você tem um chefe gordo e bobalhão que se acha um rei, mas não manda em nada. Nunca teve um relacionamento duradouro. Basta chegar perto de você e temos que agüentar aquelas fotos de mulheres nuas, que são o seu grande orgulho.
Você não tem vergonha, não?
Sei que as pessoas adoram você, Carnaval, mas eu estou cansada dos seus excessos e dessa sua existência improdutiva. Seja menos repetitivo, proponha algo novo. Desde que o conheço, você gosta das mesmas músicas. Gosta de baile. Desculpa, mas estou pulando fora.
Será que essa sua alegria toda não é para esconder alguma profunda tristeza? Será que você canta para não chorar? Tentei, várias vezes, abordar essas questões, e você sempre mudou de assunto. Ora, chega dessa loucura. Reconheça que você se esconde atrás de uma dupla personalidade.
Cada vez mais e mais pessoas ficam incomodadas com essa sua falsa euforia, fique sabendo.
Conheço várias que fogem, querendo distância das suas brincadeiras.
Você oprime todo mundo com esse seu deslumbramento excessivo diante das coisas, sabia?
Por exemplo, essa sua mania de camarote. Onde os vips podem suar sem que isso pareça nojento.
Onde se pode falar torto sem que seja errado. Todos vestidos de uniforme, senão não entram. Todos doidos para passar a mão na bunda um do outro.
Essa é a sua idéia de curtir a vida?
Menos purpurina, Carnaval. Menos bundas, menos dentes para fora. A vida é linda, mas a “lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo” é um saco. Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém. Tudo muda no mundo – por que você insiste em continuar o mesmo?
A harmonia vem da evolução, não das alegorias. Chegou a hora de rodar a baiana para não atravessar na avenida.
Como será amanhã? Responda quem puder."
Texto de Fernanda Young

domingo, 22 de janeiro de 2012

Álcool: uma reflexão sobre o papel que queremos que ele tenha em nossa vida

Em tristes tempos de Big Brother Brasil nos deparamos com mais uma polêmica baixo nível levantada pelo programa mas que levanta uma questão a ser discutida no país: o abuso do álcool para melhorar (ou apimentar) as relações interpessoais.

Devo dizer que ser bombardeada por essas questões durante 1 semana aguçou a minha curiosidade médica me fazendo dar uma olhada nos dados atuais acerca do uso do álcool no Brasil e no mundo.

O álcool é uma droga psicotrópica (porque age no sistema nervoso central produzindo alterações de comportamento, humor e cognição) que tem seu consumo permitido e até incentivado pela sociedade. Normalmente essa ingestão é valorizada para facilitar as relações entre pessoas e o abstinente pode ser socialmente constrangido.

Por tratar-se de uma droga com efeito tóxico, devemos estar atentos à dose que nosso corpo consegue metabolizar sem trazer efeitos deletérios.

Essa dose varia conforme características pessoais de sexo, peso corporal etc. No geral, para os homens, esse limite é de dois copos de vinho (90 mL cada um) ou uma latinha de cerveja ou uma dose de 50mL de destilados. Para as mulheres o limite é ainda menor.

Quem bebe mais do que isso faz o que chamamos de uso nocivo do álcool e pode desenvolver dependência. Veja que não é tão difícil assim fazermos uso nocivo do álcool!

Todos sabemos que não é de hoje que o beber é um ato social. Os estudos naturalmente reconhecem isso e mostram que esse estímulo atinge ferozmente as classes jovens.


O uso nocivo implica em uma série de problemas à saúde do indivíduo e da sociedade, sendo responsável por agressões sexuais, atos de vandalismo e brigas, acidentes e mortes no trânsito, baixo desempenho intelectual e sexual, entre outros. É comum vermos esse padrão de ingesta alcoólica em jovens (e em festas do Big Brother).


Cada sociedade tem um padrão estabelecido sobre os momentos de beber. A OMS (Organização Mundial de Saúde), em um reporte global sobre álcool e saúde publicado em 2011, mostra que os países que têm maior consumo de álcool per capita são a Rússia e alguns países da Europa do norte e central.

Consumo per capita de álcool em adultos (acima de 15 anos), em litros de álcool puro, 2005
Fonte: WHO - Global status report on alcohol and health, 2011

No entanto, essa publicação mostra que, para se avaliar o impacto do consumo de álcool em um país, é mais importante analisarmos como o álcool é consumido e não só quanto é consumido. Para isso, são levados em consideração os seguintes padrões de consumo:

· a quantidade usual consumida por ocasião;

· o beber em momentos festivos;

· em quantos eventos com bebidas o bebedor fica bêbado;

· quantos são os bebedores que bebem todos os dias ou quase todos os dias;

· beber para acompanhar refeições;

· beber em espaços públicos.
Escala de padrão de consumo, 2005
Fonte: WHO - Global status report on alcohol and health, 2011
Quando esses critérios entram no cálculo para a análise, vejam que interessante: os poucos países que apresentam o menor padrão de risco (em verde, no mapa acima) são justamente alguns países da Europa que apresentam maior consumo per capita de álcool. Já o Brasil, nesse aspecto, apresenta um padrão de consumo mais arriscado.

Ao analisarmos o padrão de consumo de álcool no Brasil, vemos que a classe jovem é pouco abstinente, apresentando um padrão de bebedor ocasional que migra para o de bebedor semanal em poucos anos.
Fonte: I Levantamento nacional sobre os padrões de consumo de álcool na população brasileira, 2007

Apesar de encontrarmos estudos mostrando isso, não precisamos deles para saber que os jovens são estimulados a beber semanalmente para socialização em festas, com descontrole de quantidade, o que geram os famosos porres e as frequentes consequências do uso nocivo que enriquecem as páginas policiais dos jornais todos os dias. Isso é chamado mundialmente de Binge Drinking, ou uso pesado episódico do álcool.

A boa notícia é que a maior parte dos jovens, ao evoluir na vida adulta, vai mudando seu padrão de ingesta alcoólica, pois vai amadurecendo, adquirindo mais segurança para as relações interpessoais, e até para evitar os chatos efeitos imediatos do uso nocivo, como a ressaca, a falta de controle sobre o comportamento e as situações embaraçosas.

Vemos nesse gráfico acima que, com o aumento da idade, a quantidade de abstêmios aumenta em detrimento da quantidade de bebedores ocasionais e frequentes. Mas o que me chamou a atenção é que, além dos abstêmios, a outra classe que aumenta com o passar da idade é a dos bebedores muito frequentes, ou seja, aqueles que bebem todos os dias.

Quando pensamos em bebedores diários, pensamos logo no pobre bêbado de sarjeta, que atingira um nível de alcoolismo a ponto de seu comportamento não se encaixar mais na sociedade. No entanto, para a nossa surpresa, nessa classe dos bebedores diários se acumulam mais pessoas das classes sociais A e B. E não há muitos estudos falando deles.

Essas são aquelas pessoas do nosso convívio social que passaram a criar o hábito de beber todos os dias ou quase todos os dias, primeiro em eventos, depois por prazer, que dificilmente se limitam a tomar 2 cálices de vinho ou uma latinha de cerveja ao dia e que, por isso, vão silenciosamente desenvolvendo tolerância e dependência.

A tolerância está instalada quando é preciso uma dose maior de álcool para causar um mesmo efeito (quando ele demora mais pra ficar bêbado, digamos assim).

Já a dependência acontece quando a pessoa começa a sentir falta da bebida, quando está sem tomá-la há alguns dias. É dependente quem bebe todo dia.
É comum esse bebedor, que não se julga um alcoólatra, negar sua condição de risco. É comum também encontrar desculpas para justificar cada dose. Pode ser comemorar a chegada de alguém querido, relaxar após um dia estressante de trabalho, controlar a ansiedade, e por aí vai. O homem em geral, quando encontra-se em uma situação estressante, procura primeiro o prazer como forma de alívio ao invés de procurar a tranquilidade. É o caminho mais fácil. E o álcool é uma forma de proporcionar isso.

Outra justificativa vem de ele achar que sua forma de consumo é "mais saudável" pois normalmente bebe em casa, não toma porres no final de semana assim como os universitários costumam fazer. É certo que são padrões diferentes de consumo, com riscos a curto prazo também diferentes, mas o prejuízo é certo - e nada saudável.

Para derrubar esse mito, vamos explicar: o álcool é metabolizado pelo fígado, que tem capacidade limitada. O uso constante do álcool pode ser sim muito prejudicial pois nem sempre o fígado dará conta de eliminá-lo por completo sem ser lesado (lembre-se ele precisa de tempo para se regenerar, coisa que o bebedor diário não o proporciona). A substância intermediária formada durante o metabolismo do álcool é o acetaldeído, que é muito mais tóxica para o fígado e para o organismo do que o próprio álcool. Só para te facilitar o cálculo, um cálice de vinho (90ml) precisa de 1 hora para ser metabolizado.

Enquanto o bêbado da sarjeta é facilmente reconhecido, esse outro bebedor frequente passa despercebido pela sociedade. Mas ele merece atenção não só pelos problemas de saúde que ele certamente irá desenvolver (podendo ser hipertensão, cirrose, câncer, problemas cardiovasculares, neuropatias, entre outros) e onerar nosso sistema de saúde, mas também pelos infortúnios que pode trazer à quem convive.

Vale lembrar também que alguns bêbados de sarjeta já foram um dia bebedores diários das classes A e B, executivos de empresas, que conseguiram fazer com que a família desistisse do convívio.

Como reconhecer um bebedor muito frequente e diferenciá-lo de um bebedor ocasional?

Um bebedor ocasional sabe limitar as situações em que bebe. Bebe num jantar, mas passa vários outros sem precisar da bebida. Sabe se divertir em situações de abstinência.

O bebedor muito frequente já começa a restringir seu prazer ao beber. Essa pessoa vai tornando-se menos interessante aos que convivem com ela. Começa a pensar em beber nas mais variadas ocasiões. Não consegue imaginar um momento de divertimento sem que o álcool esteja presente. Por esse motivo, tem a vida empobrecida e menos atraente.

O álcool despercebidamente prejudica a memória, o raciocínio, o sono e o humor. Diminui a libido, prejudicando a vida sexual. A pessoa vai se transformando em outra e, apesar dos sinais dos familiares, não se dá conta. Os acusa de implicância.

É como se o álcool tivesse finalmente a dominado, feito dela um fantoche.


Observe: vemos por aí diversos padrões de bebedores, cada um com suas implicações. Todos vão apresentar problemas de saúde e problemas sociais se não restringirem seu consumo à um padrão fisiologicamente e socialmente adequado. Mas os bebedores diários silenciosos são uma parcela de nosso país que não é tocada e que precisa ser mais consciente.

Quantos homens e mulheres não se casaram com esses fantoches disfarçados? Quantas famílias não se destruíram por isso?

Não sou a favor da caretice total e eu bebo sim em diversas ocasiões. Mas sou a favor de controlarmos o álcool e não sermos controlados por ele. Sou a favor de não precisarmos dele para nos sentir bem.

Divirta-se como quiser. Só não deixe ninguém triste.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Bom Natal o ano todo


Logo que se inicia o mês de novembro as vitrines das lojas já se enchem de guirlandas, luzes e neve fajuta (fajuta aqui, abaixo do Equador).
Muitos já começam a pensar em gastar parte do décimo terceiro salário em uns dias de festas em família ou amigos, o que inclui presentes, comidas, bebidas e uns dias de folga. Merecidos.
O Natal de muita gente se resume a isso. Independente de crença religiosa, classe social ou disposição, é notório que grande parte das pessoas - se não a maioria - segue rituais sem qualquer sentimento real e consciente envolvido. Outros, no entanto, resolvem apenas ignorar tudo, por achar tratar-se de "imposição da mídia".
Vendo tudo isso, ano após ano, eu me pergunto: o que é o Natal, de verdade?? É que, sabe, eu nunca fui adepta a rituais, a seguir condutas porque-todo-mundo-faz, mas eu sempre gostei do Natal. Acho que essa época traz uma certa magia, aquela de que passamos longe na dura realidade cotidiana, mas que tanto nos faz falta.
Observe. Não é uma questão de religião ou de comércio. As pessoas ficam mais leves nessa época do ano. Só de sair do trabalho e ver as ruas cheias de luzes, já podem esboçar um sorriso que, sem esse estímulo, não seria exibido facilmente. Muitos tiram férias, relaxam, repensam suas rotinas, encontram pessoas que não vêem com frequência, fazem planos - sempre planos - de melhorias para o próximo período que se inicia.
Acredito que o padrão de pensamento das massas muda para melhor nessa época, se eleva. O "clima" fica mais fraterno, mais solidário. E isso é bom, ajuda a nos trazer paz. Paz para o mundo.
Historicamente não se consegue saber exaaaatamente como surgiu o Natal e todos os seus símbolos agregados, tal como conhecemos hoje. Mas muitos indícios convencem historiadores a relacionar sua origem à um festival pagão realizado na Roma Antiga, chamado Saturnália.
Essa era uma festa realizada no início do inverno (lá por meados de dezembro, no hemisfério norte) em homenagem ao deus Saturno e celebrava o fim do ano agrário (ele era o deus da agricultura, que tinha importante papel naquele império) e representava a transição de um ano "velho" para um ano "novo". Então, uma festa cheia de simbologia de expectativas, memórias de anos abundantes e esperança.

A Saturnália era muito popular, deviam ser dias alegres. Durante os dias de festejo havia certo censo de igualdade, pois os escravos podiam vestir togas e falar livremente com seus senhores. Faziam-se sacrifícios, banquetes, decoravam pinheiros e era costume visitar amigos e trocar presentes, que poderiam vir acompanhados de cartões com mensagens dedicatórias.
Com a chegada do cristianismo ao Império Romano, a Igreja tentou cristianizar os festivais pagãos, com a finalidade de converter novos fiéis. Sendo assim, historiadores pensam ser possível que esse festival tenha sido adaptado pela Igreja por volta dos séculos III e IV d.C. e passado a comemorar o nascimento de Jesus Cristo (que, na verdade deve ter nascido aproximadamente entre VII e II a.C. - e não no inverno!), em data estipulada simbolicamente de 25 de dezembro.
Desde então, por atingir diversas culturas e por encontrar lendas por onde passa, simbologias têm sido agregadas à essa festividade agora cristã, assim como a Árvore de Natal e o Papai Noel.

Um símbolo deve, por definição, representar algo, mesmo que abstrato, como uma idéia. Sendo assim, se não entendemos o significado dos símbolos natalinos, essa data fica espiritualmente vazia, enquanto consegue incrivelmente lotar shopping centers.
E assim é o nosso Natal de hoje: uma data inventada, aproveitada, cheia de símbolos que não entendemos, com uma estranha solidariedade pontual e deslocada, além das lindas vitrines que nos tentam.
Esse Natal das convenções não é o Natal que eu gosto. Prefiro o meu Natal. O Natal mágico, em que todos são iguais - como na Saturnália pagã. Aquele que as luzes trazem inspiração, aquele que nos deixa mais sensíveis e solidários por amor, aquele em que dar um presente traz mais prazer do que receber, que te leva a se deliciar em dedicar 10 minutinhos do seu dia para agradar alguém especial. E, mais ainda: que faz enxergarmos todos como especiais.
Ainda assim, se esse Natal durar apenas o período do solstício de inverno do hemisfério norte (ou o solstício de verão do nosso hemisfério), estamos perdidos... O mundo continuará perdido. As crianças dos orfanatos continuarão recebendo atenção somente no final do ano, os idosos dos asilos serão lembrados e presenteados com doações em dezembro, mas em março, estarão novamente no esquecimento.
O meu Natal precisa durar o ano todo. E o esforço para isso deve ser todo meu.

Meus votos para esse fim de ano é que todos possam ter um Natal especial dentro de vocês que dure o ano todo e que os seus planos de melhoria de Ano Novo não se resumam a planos, mas a esforços.

Boas festas...
E que o espírito natalino te acompanhe o ano todo, por toda sua vida!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Redescobrindo utilidades, em busca da boa saúde mental - mesmo sem emprego

Nesse primeiro mês de expatriação vivemos ainda fora da rotina. Há muito por fazer. Temos uma casa inteira pra montar e remontar, um novo idioma a aprender, lugares novos a descobrir. Aos poucos, tudo vai entrando nos eixos.
No entanto, um conflito começa a perturbar: deixei meu trabalho lá... E agora?
Apesar de ser um conflito muito pessoal, tenho certeza de que há mais mulheres e maridos que já passaram ou vão passar por isso.

Antes de me mudar pra cá, tinha a rotina normal de qualquer trabalhador empregado: trabalhava muito, vivia agitada para dar conta do volume de coisas, ansiosa para sempre conseguir encontrar a melhor solução para os problemas e com um cansaço tão frequente que me impedia até de encontrar os amigos mais queridos. Meu jeito... Para quem ama muito seu trabalho, isso não deve ser um problema. Mas para mim meu trabalho nunca foi exatamente uma paixão.
Hoje me sinto mais feliz, mais livre, sinto até que voltei a pensar... Sim! Tenho a impressão que o excesso de trabalho aos moldes do que eu tinha antes ocupava todos os campos da minha cabeça, não deixando espaço para reflexões simples porém necessárias sobre a vida. Tudo por conta da minha - não culpo o emprego, que era bom -  dificuldade de apertar o Off.
Então... Por que isso agora?
Acho que porque sei que as pessoas são valorizadas e admiradas pelo seu emprego ou pela posição que ocupam no mercado. Talvez medo de ser visto como um ser inútil, acomodado. Meu temperamento não suportaria isso.
Mas, se formos observar, tendemos a confundir trabalho com emprego. O trabalho é o uso das nossas habilidades físicas ou intelectuais para produzir ou transformar algo. Já o emprego é a relação de troca, da troca de um serviço (trabalho) por uma remuneração, nos dando um cargo e um salário.
Conheço pessoas com cargo e salário importantes e que são com-ple-ta-men-te inúteis para a sociedade por produzirem apenas pensando em seu próprio bem-estar financeiro. Conheço também pessoas que não possuem cargo e (muito menos) salário, mas que conseguem ajudar e contribuir com a comunidade de forma sem igual. Não é um julgamento, apenas uma constatação de que um emprego de renome não necessariamente contribui mais para a humanidade do que um ato, idéia ou exemplo de alguém bem intencionado.
Partindo daí, o que de fato deve ser valorizado, o trabalho ou o emprego? A questão não é ter um emprego - ou não. Mas sim se produzimos e contribuímos para algo maior - ou não!
"Lieben und arbeiten". É dito que essa foi a resposta de Freud ao ser perguntado sobre o que uma pessoa deveria ser capaz de fazer bem. Ou seja, para Freud, uma pessoa tem boa saúde mental quando ela é capaz de amar e de trabalhar.
Amar no sentido de compartilhar, de se entregar, de reconhecer e ser reconhecido. Trabalhar no sentido de ser criativo, produtivo, útil.
Se amamos e não criamos, não produzimos, nos sentimos inúteis e infelizes. Em contrapartida, se trabalhamos a ponto de não termos tempo para amar, nossa vida então é inútil e nós, também infelizes.
Nos dias de hoje, com o status corporativo sendo mais valorizado que o amor e o trabalho, temos um cenário de saúde mental em declive. Vejo aqui na vida de muitos expatriados, exemplos de maridos enfurnados em escritórios, incapazes de amar e compartilhar da "vida exterior" e mulheres enfurnadas em suas novas casas, intimidadas pelo novo idioma, com pensamento fixo na falta do arroz com feijão e incapazes de uma produção criativa, mesmo que isenta de um cargo e salário.
Pode ser esse o bicho-papão das famílias expatriadas: uns com tanto trabalho, outros com tão pouco...
Conseguimos nos livrar dele se pudermos enxergar a tênue linha que equilibra amor e trabalho, que nos faz sermos verdadeiramente úteis e que faz com que nossa saúde mental permaneça em níveis aceitáveis.
Espero que eu e todos os outros que vivem essa situação consigamos enxergar essa linha - e vivenciá-la!
Nós, expatriados, temos sorte, pois temos a chance que poucos têm de rever nossas vidas, nossos objetivos e mudar a rotina. Podemos nos tornar úteis e criativos de forma não convencional.
Vamos aproveitar, aprender, produzir e compartilhar!
Pensando assim, conflito resolvido.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Lidar com pessoas começa com "ler" as pessoas

Se você vive em uma ilha deserta, provavelmente esse tema não lhe seja interessante. Mas se você vive em sociedade, deve lidar com pessoas constantemente, seja no trabalho, na vida pessoal, em viagens.
Porém, uma vez que somos tão distintos uns dos outros, nem sempre isso é tão simples. Se fosse, os cursos de gestão de pessoas não ministrariam aulas e aulas sobre "como lidar com pessoas". Aliás, essa é a maior dificuldade dos gestores de hoje.
Mas não precisamos ir longe. No nosso dia a dia - até na nossa família! - enfrentamos dificuldades. Não temos paciência com um, subestimamos o outro, queremos impor nossas idéias de forma rápida e a força, temos resistência em aceitar opiniões diversas... e por aí vai. Esses são só alguns exemplos do que fazemos rotineiramente de forma instintiva.
Isso porque não temos interesse em interagir de forma mais plena, de fazer exercício de paciência, de ter compreensão das circunstâncias, de revermos nossa forma de apresentação de idéias para que elas sejam mais adequadas àquela pessoa ou àquela ocasião. Ou mesmo por falta de traquejo social.
Observando situações de convivência - bem e mal sucedidas e de qualquer espécie - posso citar 4 atitudes que foram fundamentais para o sucesso ou fracasso dessa interação:
         ouvir: essa é a parte fácil; é bom lembrar que outras pessoas também podem nos ensinar algo se tivermos paciência de ouvi-las; muitas vezes elas só precisam ser ouvidas, não precisamos dar nada em troca.
        entender: é preciso entender a posição do outro, sua história de vida (sua "bagagem"), suas motivações e suas aspirações; é fundamental entender esse contexto, pois tudo pode ter 2 lados e até mais.
         aceitar: nem sempre concordamos com aquilo que vemos ou que ouvimos, mas temos que pensar que quase sempre temos uma visão parcial de tudo. Podemos opinar com nossa visão parcial, sim, mas nem sempre temos o direito de interferir - e isso não é omissão; temos que aceitar o livre arbítrio do outro.
         respeitar: é saber ouvir, entender e aceitar.
Então, para lidarmos com pessoas, temos que ouvir calados? Não! Temos que ter maturidade para processar todas essas informações obtidas (do que ouvimos, do que vemos, do que entendemos da "bagagem" que cada um traz, das circunstâncias...) e então emitir nossa posição de forma clara e sem imposições, para dar ao outro a chance de se defrontar com outro pensar e se permitir fazer mais reflexões. A decisão de mudar é do outro e não nossa. Se não nos agrada é outra história.
Para isso se tornar mais simples, a observação é fundamental. Comece a observar pessoas, a ver como agem, porque agem, observe suas feições, seus gestos, o tom da fala. É como ler nas entrelinhas.
Resumindo, as pessoas só precisam ser lidas.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Você já observou?

Reparar, observar, refletir, ponderar, aprender, crescer. Um levando ao outro: o reparar de "ponhar reparo" ao reparar de recondicionar, de rever conceitos e ações.
Quero dizer que observar as coisas, as pessoas, as ações e nós mesmos pode nos ajudar a reparar outras coisas, resolver outros problemas, ajudar outras pessoas e até nós mesmos.
O mundo tá aí pra nos ensinar. Bora reparar na vida, olhar em volta com os olhos de poeta. Esses são os olhos que não só olham, mas que vêem. Precisamos ter olhos de poeta pra enxergar nas entrelinhas e não ter medo de refletir. Refletir sobre as decisões tomadas, sobre os sentimentos desencadeados, sobre as reações obtidas.
Viver sem observar é ser levado pela vida.
Muitas vezes o aprendizado não é fácil: exige coragem para rever certos conceitos, ritos, crenças e quebrar a inércia. É aí que crescemos um tantinho.
Reparar não é tudo. Mas pode ser o primeiro passo.
Eu "ponho reparo". Se eu enxergo, penso, repenso, aprendo e cresço, só a vida vai poder dizer.